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Entre o mar e a matéria | Caderno de criação Primavera–Verão 2027 Matérias · Caderno de viagem
Entre o mar
e a matériaDepois de concluir o inverno, Murilo Lopes seguiu para Itamambuca. Alguns dias de mar, estrada e observação abriram o repertório para a Primavera–Verão 2027 da ST Hommes.
Ubatuba, SP · Paraty, RJ Murilo Lopes e Pati Santaella Leitura estimada: 6 minutos
As roupas saem da coleção e entram na vida. É nesse ponto que a construção se confirma.
01 · A pausa
Antes de começar outra coleção, era preciso mudar o ritmo.
A coleção de inverno havia acabado de ser concluída. Depois de meses entre desenvolvimento, provas, ajustes e decisões, Murilo Lopes saiu de São Paulo para passar alguns dias em Itamambuca.
A pausa não nasceu como pesquisa de coleção. Veio primeiro como necessidade de respirar, voltar ao mar e interromper por alguns dias o ritmo contínuo de criação. A câmera foi junto, sem pauta definida.
Foi justamente a ausência de um roteiro que abriu espaço para novas referências. Luz, vegetação, madeira, umidade, silêncio e movimento começaram a formar um repertório ainda sem destino claro — o primeiro campo de observação para a Primavera–Verão 2027.
O fim da tarde em Itamambuca. Menos agenda, mais espaço para observar.
A câmera acompanha a viagem como ferramenta de registro, não como produção. “A pausa não interrompe o processo. Ela devolve espaço para enxergar.”
02 · Itamambuca
O olhar muda quando o dia deixa de ser preenchido.
Na Momento Itamambuca, a mata se aproxima dos ambientes e o mar permanece ao fundo. As manhãs começam devagar. Há tempo para observar como a luz atravessa a madeira, como os materiais convivem com a umidade e como a arquitetura se ajusta à paisagem.
Murilo registra essas relações sem tentar transformá-las imediatamente em produto. O interesse está menos em encontrar uma referência literal e mais em perceber sensações que podem orientar uma coleção: leveza sem fragilidade, textura natural, cores menos rígidas e peças capazes de acompanhar dias longos.
Pati Santaella, sua esposa e arquiteta, estava junto na viagem. Seu olhar sobre espaço, proporção e matéria aparece nas conversas e nos caminhos, mas a pesquisa da coleção segue conduzida por Murilo e pelo processo criativo da ST Hommes.
O primeiro café. Luz baixa, tecido em uso e uma manhã sem pressa.
Registrar também é uma forma de selecionar o que permanece.
Arquitetura aberta para a paisagem. O lugar não tenta competir com o entorno. 03 · O mar
O surf devolve presença ao processo.
Murilo sempre encontra algum tempo para cair no mar. Não como atividade separada da vida, mas como uma forma de reorganizar a atenção.
Em Itamambuca, observar as ondas, esperar a condição e entrar na água interrompeu a lógica de resposta imediata que acompanha o trabalho. No surf, o corpo precisa estar inteiro no momento. Não há espaço para antecipar todas as decisões.
Essa mudança de estado importa para o processo criativo. A Primavera–Verão 2027 começa também nessa sensação: mais movimento, menos rigidez e uma relação mais direta entre roupa, clima e vida ao ar livre.
Antes da água, alguns minutos para observar o mar e decidir onde entrar.
Dentro da água, o pensamento encontra outro ritmo.
O surf como prática recorrente, não como acontecimento excepcional. 04 · Uma mudança de rota
Paraty apareceu antes da volta.
A viagem terminaria em Ubatuba. No caminho de retorno, surgiu a decisão de seguir até Paraty. Sem reserva anterior e sem um plano de pesquisa.
A extensão inesperada trouxe outra escala para os dias. A paisagem aberta de Itamambuca deu lugar às ruas estreitas, às pedras irregulares, às fachadas marcadas e ao encontro entre cidade, montanha e água.
A pausa começou a ganhar uma direção mais clara: reunir contrastes capazes de alimentar a próxima coleção sem transformar a viagem em uma busca forçada por respostas.
O que seria o retorno ganhou outra direção.
05 · Paraty
Superfícies que carregam tempo.
No centro histórico de Paraty, quase tudo revela passagem. As paredes guardam camadas, as portas mostram uso e o piso altera o ritmo da caminhada.
Murilo fotografa detalhes que normalmente passariam rápidos: combinações de cores, ferragens, madeira, barcos, sombras e a maneira como materiais diferentes envelhecem lado a lado.
Para a Primavera–Verão 2027, esse repertório aponta menos para uma reprodução estética do lugar e mais para um princípio: criar peças que não dependam de aparência intacta para permanecer relevantes.
No cais, a cidade se abre para a água e para as montanhas.
Paraty apareceu como uma extensão inesperada do caminho.
Pati e Murilo. Dois olhares diferentes atravessando os mesmos lugares.
A cidade exige outro passo. O piso, o tempo e as fachadas mudam o ritmo do corpo. “A próxima coleção começa no que permanece depois da viagem.”
06 · Dalcir Ramiro
A matéria pede tempo.
Em Paraty, Murilo conheceu o trabalho de Dalcir Ramiro, primeiro ceramista da cidade e autor de uma linguagem construída ao longo de décadas.
A conversa no ateliê passou pelo barro, pela repetição e pelo domínio que só aparece depois de muito fazer. Cada peça carrega pequenas diferenças e deixa visível a presença da mão.
O encontro reforçou um caminho importante para a próxima coleção: respeitar o comportamento do material, permitir que a construção apareça e desenvolver produtos que ganhem expressão no uso, em vez de depender apenas do momento em que chegam novos.
No encontro com Dalcir Ramiro, a matéria volta ao centro: barro, mão, tempo e autoria. 07 · O que retorna
A Primavera–Verão 2027 começa antes do desenho.
Murilo voltou para Cambury, no litoral norte de São Paulo, sem uma coleção resolvida — e esse nunca foi o objetivo da viagem. Voltou com o olhar menos saturado e com um conjunto de referências capazes de orientar as próximas decisões.
Itamambuca trouxe luz, movimento, vegetação e a relação direta com o mar. Paraty trouxe matéria, desgaste, cor e permanência. O encontro com Dalcir trouxe a disciplina do gesto e o respeito pelo tempo de construção.
A partir daqui, essas percepções entram no trabalho da ST Hommes. Serão traduzidas em tecidos, pesos, cores, formas de uso e detalhes. Algumas aparecerão de maneira visível. Outras permanecerão apenas como critério para decidir o que realmente merece fazer parte da Primavera–Verão 2027.
22/07/2026