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Entre o mar e a matéria — Caderno de viagem ST Hommes Matérias · Caderno de viagem
Entre o mar
e a matériaAlguns dias entre Ubatuba e Paraty. Mar, arquitetura, encontros e o espaço necessário para perceber o que a rotina costuma deixar passar.
Ubatuba, SP · Paraty, RJ Murilo Lopes e Pati Santaella Leitura estimada: 6 minutos
As roupas saem da coleção e entram na vida. É nesse ponto que a construção se confirma.
01 · A pausa
Alguns dias fora do ritmo conhecido.
Depois de meses concentrados na finalização da coleção de inverno, Murilo Lopes e Pati Santaella seguiram para Itamambuca. A ideia era pequena: descansar, entrar no mar e deixar os dias acontecerem com menos planejamento.
Não havia roteiro de produção. A câmera foi junto porque Murilo costuma registrar aquilo que chama sua atenção. Pati levou o olhar treinado pela arquitetura. Entre os dois, a viagem ganhou uma coleção informal de cenas: a luz da manhã, a madeira marcada pelo tempo, a mata próxima, os caminhos até a praia e as conversas que aparecem quando a agenda diminui.
O que começou como uma pausa se tornou uma maneira de voltar a observar. Sem a obrigação de chegar rapidamente a uma conclusão.
O fim da tarde em Itamambuca. Menos agenda, mais espaço para observar.
A câmera acompanha a viagem como ferramenta de registro, não como produção. “Às vezes, mudar de lugar é apenas uma forma de voltar a perceber.”
02 · Itamambuca
Cada um observa o lugar por uma entrada diferente.
Na Momento Itamambuca, a mata aparece antes da praia. A luz atravessa os ambientes, o café demora um pouco mais e o dia começa sem o ruído habitual da cidade.
Pati observa proporções, materiais, circulação e a maneira como a arquitetura se acomoda ao terreno. Esse repertório atravessa seu trabalho no @merci_arquitetura. Murilo registra luz, textura, objetos e pequenas composições que também alimentam o trabalho do @amor.stu e a direção criativa da ST Hommes.
Não se trata de buscar referências prontas. O interesse está em perceber relações: madeira e vegetação, sombra e abertura, silêncio e escala. Imagens que permanecem sem precisar explicar imediatamente onde serão usadas.
O primeiro café. Luz baixa, tecido em uso e uma manhã sem pressa.
Registrar também é uma forma de selecionar o que permanece.
Arquitetura aberta para a paisagem. O lugar não tenta competir com o entorno. 03 · O mar
Murilo sempre encontra um tempo para surfar.
O surf não entra na viagem como atividade marcada. Ele já faz parte da forma como Murilo organiza o próprio tempo.
Mesmo nos períodos mais concentrados de trabalho, existe uma tentativa de preservar algum espaço para cair no mar. Às vezes é uma manhã curta. Em outras, uma mudança de rota. Não como fuga, mas como um lugar onde atenção e movimento voltam a ocupar o mesmo ponto.
Em Itamambuca, a prancha esteve por perto desde o começo. Observar as ondas, esperar a condição e entrar na água deram outra medida aos dias. O tempo deixou de ser preenchido e passou a ser percebido.
Antes da água, alguns minutos para observar o mar e decidir onde entrar.
Dentro da água, o pensamento encontra outro ritmo.
O surf como prática recorrente, não como acontecimento excepcional. 04 · Uma mudança de rota
Paraty não estava no plano.
No momento de voltar, a viagem ganhou mais um trecho. Paraty surgiu como uma decisão de última hora — próxima o suficiente para seguir, distinta o bastante para mudar novamente o olhar.
A prancha voltou para o carro. O litoral continuou pela estrada. A pausa, que começou como descanso, passou a reunir sinais para novos projetos.
O que seria o retorno ganhou outra direção.
05 · Paraty
Uma cidade construída em camadas.
No centro histórico, o tempo está na superfície. Nas pedras irregulares, nas portas marcadas, nas paredes espessas e na escala das ruas. Nada parece recém-colocado. Tudo carrega continuidade.
Pati observa a cidade pela arquitetura: proporção, circulação, cor, sombra e a relação constante entre interior e rua. Murilo se aproxima das superfícies, das marcas de uso e da forma como o cotidiano modifica aquilo que foi construído.
O passeio não precisou virar pesquisa formal. Bastou caminhar, fotografar, parar diante de uma fachada e seguir. O repertório se formou no próprio movimento.
No cais, a cidade se abre para a água e para as montanhas.
Paraty apareceu como uma extensão inesperada do caminho.
Pati e Murilo. Dois olhares diferentes atravessando os mesmos lugares.
A cidade exige outro passo. O piso, o tempo e as fachadas mudam o ritmo do corpo. “Alguns lugares não entregam respostas. Eles apenas ampliam o olhar.”
06 · Dalcir Ramiro
O tempo guardado pelas mãos.
Em Paraty, a viagem encontrou o ateliê de Dalcir Ramiro, reconhecido como o primeiro ceramista da cidade e autor de um trabalho construído a partir de linguagem própria.
A conversa passou pelo barro, pelo gesto e pela repetição necessária para formar uma obra. Cada peça carrega pequenas diferenças. Não como falha, mas como registro do processo e da mão que a construiu.
Há uma proximidade direta com a forma como a ST Hommes pensa produto. O material não precisa desaparecer sob o acabamento. A construção pode permanecer visível. A textura pode contar de onde a peça veio e como foi feita.
No encontro com Dalcir Ramiro, a matéria volta ao centro: barro, mão, tempo e autoria. 07 · Retorno
Voltar com menos respostas e melhores perguntas.
A viagem começou como uma pausa curta. Terminou com mais estrada, novas conversas e a sensação de que aqueles dias tinham durado mais do que o calendário mostrava.
Ubatuba devolveu o mar à rotina. Paraty trouxe a surpresa de um caminho não planejado. O encontro com Dalcir lembrou que criar também exige repetição, paciência e proximidade com a matéria.
Murilo e Pati voltaram sem a obrigação de transformar cada imagem em projeto. Algumas referências entram no trabalho. Outras permanecem apenas como memória de uma vida que também precisa ser vivida.
22/07/2026