22/07/2026
  • Entre o mar e a matéria — Caderno de viagem ST Hommes

    Matérias · Caderno de viagem

    Entre o mar
    e a matéria

    Alguns dias entre Ubatuba e Paraty. Mar, arquitetura, encontros e o espaço necessário para perceber o que a rotina costuma deixar passar.

    Ubatuba, SP · Paraty, RJ Murilo Lopes e Pati Santaella Leitura estimada: 6 minutos
    Murilo carregando uma prancha de surfe com a mata e o litoral ao fundo

    As roupas saem da coleção e entram na vida. É nesse ponto que a construção se confirma.

    01 · A pausa

    Alguns dias fora do ritmo conhecido.

    Depois de meses concentrados na finalização da coleção de inverno, Murilo Lopes e Pati Santaella seguiram para Itamambuca. A ideia era pequena: descansar, entrar no mar e deixar os dias acontecerem com menos planejamento.

    Não havia roteiro de produção. A câmera foi junto porque Murilo costuma registrar aquilo que chama sua atenção. Pati levou o olhar treinado pela arquitetura. Entre os dois, a viagem ganhou uma coleção informal de cenas: a luz da manhã, a madeira marcada pelo tempo, a mata próxima, os caminhos até a praia e as conversas que aparecem quando a agenda diminui.

    O que começou como uma pausa se tornou uma maneira de voltar a observar. Sem a obrigação de chegar rapidamente a uma conclusão.

    Murilo Lopes sentado no deck da pousada, com o mar e a mata ao fundo
    O fim da tarde em Itamambuca. Menos agenda, mais espaço para observar.
    Murilo Lopes fotografando diante de um espelho em área cercada por vegetação
    A câmera acompanha a viagem como ferramenta de registro, não como produção.
    “Às vezes, mudar de lugar é apenas uma forma de voltar a perceber.”
    Caderno de viagem · ST Hommes

    02 · Itamambuca

    Cada um observa o lugar por uma entrada diferente.

    Na Momento Itamambuca, a mata aparece antes da praia. A luz atravessa os ambientes, o café demora um pouco mais e o dia começa sem o ruído habitual da cidade.

    Pati observa proporções, materiais, circulação e a maneira como a arquitetura se acomoda ao terreno. Esse repertório atravessa seu trabalho no @merci_arquitetura. Murilo registra luz, textura, objetos e pequenas composições que também alimentam o trabalho do @amor.stu e a direção criativa da ST Hommes.

    Não se trata de buscar referências prontas. O interesse está em perceber relações: madeira e vegetação, sombra e abertura, silêncio e escala. Imagens que permanecem sem precisar explicar imediatamente onde serão usadas.

    Murilo tomando café diante de uma janela com vista para a mata
    O primeiro café. Luz baixa, tecido em uso e uma manhã sem pressa.
    Murilo com uma câmera fotográfica sob a luz da manhã na pousada
    Registrar também é uma forma de selecionar o que permanece.
    Deck da Momento Itamambuca aberto para a mata e o mar
    Arquitetura aberta para a paisagem. O lugar não tenta competir com o entorno.

    03 · O mar

    Murilo sempre encontra um tempo para surfar.

    O surf não entra na viagem como atividade marcada. Ele já faz parte da forma como Murilo organiza o próprio tempo.

    Mesmo nos períodos mais concentrados de trabalho, existe uma tentativa de preservar algum espaço para cair no mar. Às vezes é uma manhã curta. Em outras, uma mudança de rota. Não como fuga, mas como um lugar onde atenção e movimento voltam a ocupar o mesmo ponto.

    Em Itamambuca, a prancha esteve por perto desde o começo. Observar as ondas, esperar a condição e entrar na água deram outra medida aos dias. O tempo deixou de ser preenchido e passou a ser percebido.

    Murilo saindo da pousada com a prancha diante da vista para a mata e o mar
    Antes da água, alguns minutos para observar o mar e decidir onde entrar.
    Murilo surfando uma onda em Itamambuca
    Dentro da água, o pensamento encontra outro ritmo.
    Murilo em pé na prancha durante uma onda
    O surf como prática recorrente, não como acontecimento excepcional.

    04 · Uma mudança de rota

    Paraty não estava no plano.

    No momento de voltar, a viagem ganhou mais um trecho. Paraty surgiu como uma decisão de última hora — próxima o suficiente para seguir, distinta o bastante para mudar novamente o olhar.

    A prancha voltou para o carro. O litoral continuou pela estrada. A pausa, que começou como descanso, passou a reunir sinais para novos projetos.

    Murilo guardando a prancha no carro antes de seguir viagem

    O que seria o retorno ganhou outra direção.

    05 · Paraty

    Uma cidade construída em camadas.

    No centro histórico, o tempo está na superfície. Nas pedras irregulares, nas portas marcadas, nas paredes espessas e na escala das ruas. Nada parece recém-colocado. Tudo carrega continuidade.

    Pati observa a cidade pela arquitetura: proporção, circulação, cor, sombra e a relação constante entre interior e rua. Murilo se aproxima das superfícies, das marcas de uso e da forma como o cotidiano modifica aquilo que foi construído.

    O passeio não precisou virar pesquisa formal. Bastou caminhar, fotografar, parar diante de uma fachada e seguir. O repertório se formou no próprio movimento.

    Barcos coloridos no cais de Paraty com as montanhas ao fundo
    No cais, a cidade se abre para a água e para as montanhas.
    Rua histórica de Paraty com fachadas brancas, portas coloridas e piso de pedra
    Paraty apareceu como uma extensão inesperada do caminho.
    Pati Santaella e Murilo Lopes diante de um espelho durante a viagem em Paraty
    Pati e Murilo. Dois olhares diferentes atravessando os mesmos lugares.
    Detalhe dos passos de Murilo e Pati sobre as pedras do centro histórico de Paraty
    A cidade exige outro passo. O piso, o tempo e as fachadas mudam o ritmo do corpo.
    “Alguns lugares não entregam respostas. Eles apenas ampliam o olhar.”
    Caderno de viagem · ST Hommes

    06 · Dalcir Ramiro

    O tempo guardado pelas mãos.

    Em Paraty, a viagem encontrou o ateliê de Dalcir Ramiro, reconhecido como o primeiro ceramista da cidade e autor de um trabalho construído a partir de linguagem própria.

    A conversa passou pelo barro, pelo gesto e pela repetição necessária para formar uma obra. Cada peça carrega pequenas diferenças. Não como falha, mas como registro do processo e da mão que a construiu.

    Há uma proximidade direta com a forma como a ST Hommes pensa produto. O material não precisa desaparecer sob o acabamento. A construção pode permanecer visível. A textura pode contar de onde a peça veio e como foi feita.

    Murilo conversando com o ceramista Dalcir Ramiro em seu ateliê em Paraty
    No encontro com Dalcir Ramiro, a matéria volta ao centro: barro, mão, tempo e autoria.

    07 · Retorno

    Voltar com menos respostas e melhores perguntas.

    A viagem começou como uma pausa curta. Terminou com mais estrada, novas conversas e a sensação de que aqueles dias tinham durado mais do que o calendário mostrava.

    Ubatuba devolveu o mar à rotina. Paraty trouxe a surpresa de um caminho não planejado. O encontro com Dalcir lembrou que criar também exige repetição, paciência e proximidade com a matéria.

    Murilo e Pati voltaram sem a obrigação de transformar cada imagem em projeto. Algumas referências entram no trabalho. Outras permanecem apenas como memória de uma vida que também precisa ser vivida.

    Participantes
    Murilo Lopes — Diretor criativo da ST Hommes · @muriilo.lopes · @amor.stu
    Pati Santaella — Arquiteta · @patisantaella · @merci_arquitetura

    Lugares
    Momento Itamambuca, Ubatuba · @momentoitamambuca
    Centro histórico de Paraty, Rio de Janeiro
    Ateliê de Dalcir Ramiro, ceramista em Paraty

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